mãe

 Oh, mãe, estão todos um pouco loucos, esquizofrênicos.Vivem se amando e destruindo-se. Mãe, a senhora sabe quanto tempo mais? Venha aqui. As paredes perderam sua alvura original e as penas dos pássaros da calçada já estão escassas. Entretanto, estou certa de que a senhora ainda reconhecerá a casa. Há de ser um mês? Eu aceito voltar para cá quando já tiver aprendido a vestir essas fantasias de um negrume incompreensível. Quando souber sustentar minha alma sob as vigas de relações esmorecidas. Aceito, sim. Há aqui dentro um turbilhão de sentimentos. Ódio,medo... Um novelo de sensações caladas pelas mãos da multidão enlouquecida. Venha aqui tratar da minha náusea. Eu posso voltar sozinha. Qual é o caminho, mãe?Qual é o caminho para o seu lugar?
  Quero sentar na cadeira de casa e olhar através dos olhos de quem eu conheço. Olhar para quem reconhece-me pura e nua, escondida atrás da crosta de uma maquiagem esdrúxula. Quero beijá-los com os olhos fechados e contar-lhes sem receio, sem vergonha.Venha, sim. Quero enxergar-me nas suas faces familiares e envelhecidas.
   Vinte dias? Comprometo-me a aprender esforçosamente as leis do mundo. Dedico-me a arrancar minhas raízes nostálgicas enterradas na senhora. Hão de existir resquícios mas juro que elimino o essencial. Quinze dias? Ensina-me a viver no tumulto sem cor. Ensina-me a andar rápido carregando pastas. Mãe, pinta-me de cinza também. Reconhecerei-te pelo cheiro, pela voz. Reconhecerei-te pelo jeito de mexer nos cabelos. A senhora lembrará da minha alma ao olhar as costas curvadas, meus olhos pretos e fundos.
   Quem me buscaria senão vocês? Quem há de limpar-me com a água pura e deitar-me sobre um lençol alvo, com o suave cheiro de erva-doce? Dizia-me que o repouso do corpo é simultâneo ao da mente. Acredito. Como seria de outro jeito? Oh, mãe. Dez dias? Dê-me um quarto com elementos da infância e deixe-me gritar lá até que o sentimento jorre de uma só vez. Até que eu consiga abandonar no lixo esse resíduo interno. Deixe-me lá ao som do meu próprio corpo e das minhas próprias feridas ardidas. Deixe-me estar.
  Quero permanecer a sós com minha alma imperfeita como sugerem. Sentir meus defeitos ao som desse grito jorrante. Sentir-me, enfim, humana pois tenho-o esquecido diante dessa casa claustrofóbica inundada por cérebros.
  Busque-me logo, sim. A velocidade desse caminho nos engolirá e tornar-nos-á reféns de uma saudade asmática encoberta de remorsos. A brevidade acabará por despedaçar meu amor ao leite, à manhã de um domingo. Três dias, mãe? Estou ficando igual a todos eles com a diferença dessa mania hereditária de crer em outro sorriso, crer em outro sermão. Será assim até o fim? Trilhões de olhos cegos no mundo. Trilhões de almas imiscíveis. Trilhões de nobres querendo para si mais vinte e quatro horas, mais vinte e quatro, mais quarenta e oito... Até o fim.
  Hoje, mãe? Hoje à noite serão teus fios brancos? Será tua voz de endorfina? A voz que se propaga pelo corpo inteiro e fecha os olhos. Não existem indivíduos ilesos ao efeito dessas vozes antigas. Vozes que nos transformam em massa de sentimentos. Massa indefinida, sem joias. Deixam-nos viver por instantes sem comparações. Malditos e infindos abismos entre patamares humanos! Afinal, mãe, é preciso ser diferente ou igual? É preciso ultrapassá-los ou segui-los? É fundamental desistir?
 Teremos que ser perfeitos até o topo da vida? Receio que iremos perder o fio contínuo da felicidade. Iremos perder o foco do sorriso não comercial, o foco de um amanhecer do campo.
  Coloque seus pés na areia e deixe que eu pise em suas marcas ainda não inundadas pelo mar. Chegue à praia e oriente-se por mim até a outra ponta do litoral. Só até a outra, mãe.

2012

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